Silêncio telefônico reflexivo

Eu fitava o teto branco do escritório e lembrava das conversas por horas a fio com meus amigos no telefone quando mais jovem. Não sei como havia assunto para tantas palavras. Mas como a vida me ensinou que quanto mais se conversa mais assunto há, talvez seja isso. Além disso, aquela antiga intimidade permitia até alguns segundos de silêncio telefônico reflexivo, algo inconcebível nos dias de hoje.

Voltei a mim e às várias telas que me rodeavam. iMac, iPad, iPhone. Em uma delas o cursor piscava relutante no post vazio. Mark Zuckerberg aguardava pacientemente minha novidade para transmití-la  a todos os meus 645 amigos virtuais, dos quais pelo menos cinquenta por cento eu sequer reconheceria se cruzasse na rua ou esbarrasse no Jobi numa quinta à noite.

Eu queria apenas comentar o recente aumento abusivo de preços que percebi no supermercado, algo até meio sem importância para falar pra tanta gente. Além disso, apesar da facilidade que argumentação escrita me provia nas discussões das redes sociais, sempre achei meio estranho comentar alguma coisa e esperar trinta minutos pra ouvir uma resposta, um “like” pra mim então, era descaso.

Tomado por um espírito revolucionário naquele momento, em pleno escritório às três da tarde, passei a mão no telefone e disquei o primeiro número. Rafael atendeu com uma voz preocupada, já dizendo “- Fala cara, tá tudo bem? O que houve?”, como se pressentisse alguma notícia devastadora que estaria por vir. Natural, havia pelo menos cinco anos que não falávamos. Eu respondi então calmamente: “-Tudo ótimo. Cara, as coisas aumentaram muito na virada do ano, absurdo né?”. A resposta meio sem jeito foi o início de uma conversa boa que não durou mais do que poucos minutos, eu não podia demorar, ainda faltavam pelo menos mais uns duzentos telefonemas.

Aliás, qual o seu número mesmo?

 

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Estrada

Ele caminha sozinho sob o sol que castiga a estrada. A poeira escorre da testa e embaça os olhos.

A pouca água, meio bebida, meio lavada, escorre do rosto e revela o aceno arrogante sobre quatro rodas.

Este que some num instante, em um horizonte tão distante. Ele segue devagar, mas na mesma direção.

Veria aquele rosto novamente, muitas estradas depois, já perto do fim da vida, mas quase sem marcas do tempo.

Tinha olhares sem brilho, espectadores de caminhos fáceis que passaram rápido, sem deixar qualquer história.

Já nele, as rugas cobriam o rosto, mas cada uma era o esforço de ter hoje esse sorriso de quem sabe muito mais.

 

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Os ricos

O alto da montanha era onde o sol atingia a cidade primeiro, e os raios de luz daquele domingo ultrapassaram as delicadas cortinas, despertando-a. Ele, como sempre, sequer percebera. A claridade inundava o quarto rústico, e o brilho da única parede branca contrastava com as demais em tijolo clássico.

Despertado enfim pelos suaves lábios que lhe beijavam a orelha, tateava o antigo livro repousado na mesinha ao lado da cama, onde colocara, já sonolento na noite anterior, os óculos herdados do pai.

Da cozinha, ele já podia ouvir o estalar dos ingredientes que, delicadamente preparados fariam mais um memoravel café da manhã naquela pequena casa.

O banho frio era sua forma de despertar, e diferente dos dias da semana em que era quase necessário para sair ainda cedo para a empresa, hoje ele sentia a àgua gelada batendo no rosto e sorria, prevendo o dia perfeito pela frente.

Abaixada no pequeno jardim atrás da casa, ela colhia os temperos que usariam no almoço. Ela, displicente com as roupas largas, exibia seu corpo perfeito, fingindo não saber que ele a observava encostado na porta, enquanto a fumaça do café embaçava suas lentes.

Cada detalhe da casa era pensado, cada móvel, cada planta, cada recordação. Desenhavam algumas das peças que usavam em casa por querê-las absolutamente perfeitas, e acima de tudo, do seu jeito. Reciclavam, reaproveitavam, reutilizavam, simplesmente porque sabiam da real importancia de assim fazê-lo.

Preparam tudo com todo o cuidado, ao som do antigo vinil de Frank Sinatra que ele guardava com carinho por décadas. O som arranhado da sala invadia a cozinha, já que eram quase o mesmo ambiente, e eles tão próximos e tão felizes, celebravam a beleza de cada detalhe que tinham a oportunidade de vivenciar.

Já era quase meio dia, quando a mesa posta exibia uma simetria perfeita, decorada pelos dois pratos cuidadosamente montados e pelos copos de vinho tinto que acompanhariam o almoço. O sabor era iniqualável,  sabiam que não havia no mundo nada tão especial como o que eles tinham, e agradecial por isso. Tinham consciência do seu privilégio e se perguntavam se todos que tinham a sua condição aproveitavam de fato a vida como eles.

Ao entardecer, sendados no terraço da casa, brindavam à paisagem que os rodeava,  aproveitando aquele raro silêncio absoluto, quando, de repente, Cleide, a vizinha da casa ao lado, grita da outra laje:

– Olha lá Washington, nem parece que moram no morro.. É muita elegânça!  E o rango de hoje hein? Tava chêrando bem!

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Carta ao passado

Tú talvez estejas lendo isso incrédulo, certo de que a tua cabeça lógica, não poderia aceitar a veracidade de tais palavras, ou talvez, apenas teu desinteresse pelo futuro, próprio de um adolescente que pensa apenas o presente, o impeça de dedicar a devida atenção ao que vou dizer-te nessas frases, que de certo te parecerão antigas, e portanto, do passado.

Vou dizer-te assim mesmo, e tais palavras soam velhas porque és velho agora, ou melhor, sou velho, porque sou você em outro tempo. Aliás não sou velho, sou maduro, e com todo respeito à sua juventude, sou muito melhor que tú, em todos os sentidos.

Minhas palavras não são conselhos. Minha velhice, ou melhor, minha experiência, não me deixa perder tempo com conselhos a um adolescente. Sei que não os ouviria. O que te dou aqui é apenas um relato do meu presente, para atenuar a tua angústia de sentir o tempo passar.

Daqui desses dias, eu posso te dizer que serás um homem absolutamente feliz. Danem-se os invejosos que duvidam da felicidade plena. Ela existe sim e o que vivo aqui é prova disso. Mas não gabe-se de que não terás problemas, ou decepções, ou desilusões, não. Terás muitas, mas saiba que quando parares e contemplar-tes o silêncio, terás certeza de que és sim, absolutamente feliz.

Se estiveres perguntando-te agora porquê teria um homem com dúvidas, decepções e desilusões, tem a audácia de enxergar apenas felicidade, digo-te, se dúvida, que para isso, bastará que olhes a tua vida no reflexo dos olhos da tua mulher. Ah, não sabias? Tu casarás.

Essa mulher te proporcionará a certeza em meio a todas as tuas dúvidas, resumirá a beleza que hoje desejas tão visceralmente, te dará carinhos que sequer imaginas existir e, principalmente, estará sempre ao teu lado. Essa mulher te olharás com tamanha ternura, e dedicar-se-á tanto a te fazer feliz, que confesso, um dia, sentirás medo de perdê-la, e perdê-la será a única coisa que te preocuparás aqui, porque só assim poderias deixar de ser absolutamente feliz.

Mas não te preocupes, já estás aqui com vários cabelos brancos e ela está ao teu lado. E por esses olhos negros eu olho meu presente, e torço, sempre, para um dia receber uma carta assim, do futuro, contando-me de como as tantas rugas dos olhos dela, ainda emolduram o mesmo brilho.

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A balsa

Ele saiu mais uma vez ao entardecer, logo após os tons vermelhos mancharem o quase sempre nublado céu que cobria sua cabana. Caminhou pela pequena trilha de pedra que terminava próximo a margem de agua que circundava todo o seu mundo, e lá, como todos os dias, estava a pequena balsa de madeira que o levaria ao outro lado.

Ele sempre se sentiu só. Os sons da densa floresta que cercava a cabana, o assustavam à noite. E foi só depois de encontrar aquela velha balsa de madeira, com apenas um remo, que ele descobriu a alegria de estar naquele outro mundo.

Apesar do esforço diário de levar repetidamente o remo à agua, suas mãos eram suaves, tal quando tinha seus dezoito anos e ainda morava na fazenda com seus pais. Ele parou, como sempre fazia, exatamente na metade do caminho a percorrer, respirou fundo a névoa que já encobria o barco, e tentou lembrar novamente quando os havia visto pela última vez.

Voltou a remar e viu a outra margem se aproximar. Amarrou a balsa na mesma árvore, já marcada pela sua corda, e caminhou pela floresta apenas alguns minutos, para então, poder ouvir novamente as vozes dos jovens que divertiam-se na pequena praça da cidade. Era diferente na fazenda onde morava, lá não havia qualquer cidade próxima, e ele dirigia horas pelos monótonos campos de milho para encontrar os amigos. Fazia força para lembrar daquela última festa, mas apenas imagens embaçadas de quem bebeu demais misturavan-se a uma quase certeza de ter conseguido dirigir pela estrada de volta.

Mas agora era diferente, algumas remadas o levavam a agitada praça da pequena cidade, onde ele encontrava tantas pessoas, uma em especial, aquela menina de cabelos longos e pretos. Ele ainda não havia perguntado seu nome, mas não importava, ele sabia que ela, em algum momento, o notaria. Era uma questão de tempo. Ele repetidamente passava ao seu lado, e certa vez, chegou a dividir um banco junto ao bar, mas a indiferença dela o afastava.

Já era tarde quando ela despediu-se dos amigos e começou a caminhar de volta pra casa e ele, como fazia todas as noites, a acompanhava do outro lado da rua, tentando evitar que seus passos a assustassem no silêncio da rua deserta. Nunca havia sido percebido e pensava que se o fosse, assim, dessa forma, pareceria um assaltante ou algo assim.

Ela mal havia posto os pés no asfalto da última rua, quando o barulho seco do metal contra seu corpo precedeu o vôo dos longos cabelos. Da queda do corpo frágil, ouviu-se apenas o som dos pneus se afastando. E ele, que assistia a tudo imóvel, viu impotente as luzes do carro desaparecerem na esquina.

Então, finalmente, após tanto tempo, ele aproximou-se e pôde tocar seus cabelos pretos e segurar seu corpo. Seu forte grito por socorro atravessara o silêncio da cidade, mas não houve resposta, até que então, seus olhos dela abriram lentamente e, pela primeira vez, ela pôde  vê-lo. Levantou-se então sem parecer ter sofrido pelo impacto, apresentaram-se, e caminharam conversando pelas ruas desertas e escuras da cidade. Ela já não sentia precisar voltar pra casa e ele, tinha certeza de que tinha de levá-la para a outra margem.

Desataram juntos a corda da árvore marcada, pegaram cada um seu remo, e subiram juntos na balsa, que fez então a sua última travessia daquelas águas. Ele nunca percorreu novamente a trilha que levava a margem, nunca mais quis, a floresta já não mais o assustava. Mas se voltasse fazê-lo, lá não haveria mais balsa alguma.

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Finas Paredes

Seus braços finos enlaçam as pernas dobradas contra o corpo, o rosto amassado entre os joelhos esconde os olhos fechados. A testa franze com a força para não ouvir os gritos no quarto ao lado.

É apenas mais uma madrugada sob aqueles sons que a acompanharam pela infância. As ofensas são abafadas pela fina parede de concreto, mas a dor da mulher é cristalina. Sentada na cama, ela balança o corpo repetidamente, machucando as costas na parede. Leva as mãos à cabeça como se pudesse deixar de ouvir aquela voz grave.

As lágrimas escorriam dos olhos fechados, misturando-se às gotas do suor no rosto, quando finalmente, o alento do abraço companheiro a faz abrir os olhos. Lembra então não ser mais uma menina, e percebe, que a vida na casa dos seus pais é apenas uma lembrança, mas que a história do quarto ao lado se repete agora no apartamento dos malditos vizinhos.

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Gota

Vivo em meu mundo flexível, cercada do silêncio e do breu. Sou nada na imensidão do todo ao meu redor.

Subo então do meu inferno frio, ao meu céu, fronteira entre dois mundos, iluminada, quente. Vejo uma luz, como nunca havia visto, que brilha, que cega, que aquece. Me aquece devagar. Me transforma.

Mudo meu estado, mantendo minha essência, flutuo, vejo o desconhecido do alto. Cada vez mais alto. Cada vez mais longe. Cada vez mais frio. O branco intenso, coadjuvante de um azul inesquecível, toma minha alma, e apaga meu passado sombrio.

Luto para permanecer ali, mas a memória da minha essência me traz de volta, o frio me condensa. Meu peso agora desperta a gravidade, que me nota, que me puxa. Cada vez mais rápido.

Caio, ouvindo tenebrosos estrondos, enquanto luzes cortam meu caminho sem se importar comigo. Incapaz, aceito o fim. E assim, sinto o choque do meu corpo com o asfalto escuro.

Noto um calor intenso, e esqueço a dor do impacto. Aprendi. O calor me transforma, me purifica, me eleva, e em breve, vou ver de novo aquele azul.

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Roommate

Eram ainda seis da manhã, quando o telefone tremia embaixo do travesseiro de Lucas. Casado há poucos meses com Roberta, eles moravam na zona norte Carioca. Conheceram-se na faculdade de medicina, no interior, e chegaram à cidade com o sonho de viver nas novelas de Manuel Carlos, mas foram parar em Piedade. Eram tempos loucos no mercado imobiliário do Rio de Janeiro e Piedade foi o deu pra pagar.

A tela rachada do telefone iluminava o quarto ainda escuro, piscando o irritante nome do corretor de imóveis: Pereira. Era um cara insuportável, mas que tinha fama de conseguir ótimos apartamentos. Um “bom dia” de voz rouca e arrastada, atendeu a empolgação de Pereira, que afirmava ter achado um apartamento de três quartos, no Leblon, e jurava que eles podiam pagar. Lucas, riu, mas não conseguiu responder por causa do ensurdecedor som do 457 que passava a poucos metros de sua janela. Marcou a visita para às onze.

Os dois lances de escada não preocuparam o casal, cacete, estavam no Leblon, que diferença faria subir alguns degraus. Era um dos poucos prédios antigos ainda de pé da rua Carlos Góes, com seus poucos andares, e varandinhas decoradas pelos velhinhos que ignoravam as exorbitantes ofertas de vender suas casas.

Pereira virou, e antes de abrir a porta, voltou a rasgar elogios ao apartamento, mas dessa vez, já meio gaguejando, começava a explicar que o apartamento era de uma senhora, e que, após sua morte, o imóvel ainda seguia os longos trâmites de partilha de bens entre os quatro filhos, mas nada que atrapalhasse o aluguel. Mal abrira a porta e o casal já se espremia para olhar, deslumbrados, a maravilhosa sala iluminada pela luz do sol. O lugar parecia impecável, ao contrário dos tantos apartamentos mofados que eles viram nos últimos meses. Entre os sorrisos que trocavam, Lucas e Roberta voltaram a ouvir o corretor: “– A questão é a seguinte. A senhora que morava antes, amava tanto o apartamento, que viveu aqui mais de quarenta anos, só que nos últimos anos ela tinha se tornado meio obsessiva. Não deixava ninguém entrar na casa porque tinha medo que a tirassem daqui. Ela dizia que as construtoras estavam envenenando os velhinhos do Leblon pra poder comprar os apartamentos dos herdeiros… doida mesmo”. Lucas, apesar de preocupado com o rumo da história, não deixava de dar certa razão a velha.

“– Mas então, o negócio é o seguinte: a velha maluca conseguiu, não se sabe como, fazer um documento com o advogado, que orientava a seguradora a logo após sua morte, embalsamar o corpo e colocá-la de volta no apartamento, até que fosse vendido. Parece que a velha já sabia a briga que ia ser entre os filhos por causa desse dinheiro todo, então acho que ela quis mesmo foi complicar o negócio. Mas enfim, a questão é essa…”, disse Pereira já abrindo a porta do quarto.

Os três entraram lentamente e logo viram uma simpática varanda envidraçada e a antiga cadeira de balanço no canto. Dona Sônia até parecia meio viva, a pele desidratada e sem vida, não era tão diferente dos vizinhos. Com os olhos fechados e uma expressão serena, ela parecia dormir, apoiando as mãos cruzadas sob a mantinha de croché.

Pereira repetia quase gritando o valor do aluguel. Era três ou quatro vezes menos do que deveria ser, não fosse o pequeno detalhe de haver uma velha morta no quarto.

“– Vocês não podem perder isso, vocês não são médicos pô? Tão acostumados com gente morta!”. Roberta, indignada com a situação, fez o sinal da cruz, virou-se, e em três ou quatro passos largos já chamava Lucas para fora do apartamento.

Foram longos minutos de silêncio no carro, até que Roberta resmungou “– Cara-de-pau… Como esse imbecil mete a gente numa dessas… E essa velha maluca, puta que pariu…”. Lucas fazia que concordava com a cabeça mas não tirava os olhos da praia. Era um lindo dia de primavera, e a água do Leblon parecia perfeita. Viraram no Jardin de Alah, em direção ao túnel Rebouças e depois, Piedade.

O chuveiro elétrico fazia um barulho estranho e Roberta tentava, como sempre, não prestar atenção. Fechou os olhos e enquanto a agua morna escorria pelo rosto, lembrava de quanto sonharam com um apartamento daqueles. Não era só o bairro que eles mais queriam, mas era o apartamento perfeito. Entrou então na sala, ainda de toalha dizendo: “– Essa história de colocar a uma velha morta no apartamento deve ser contra alguma lei, não é possível… com certeza daqui a pouco vão tirar ela dali…”. Lucas não sabia exatamente onde ela queria chegar com a conversa, então esperou. Roberta continuou: “– Mas se tirassem ela de lá antes de alugar o preço não ia ser esse né…”. Lucas já tinha entendido.

Pereira devorava um galeto em Copacabana e atendeu o celular com o guardanapo. Ainda mastigando e equilibrando o aparelho no ombro, ouviu, surpreso, Lucas dizer que ficariam com o apartamento.

O plano era simples, eles não precisavam de três quartos. Combinaram então, deixar o quarto trancado até que, em breve, conseguissem mandar tirar a velha de lá, afinal aquilo não tinha o menor cabimento. Foi então, com um imenso sorriso no rosto, e as mãos dadas dentro do carro, que eles cruzaram, de vez, o túnel Rebouças.

Já se passavam agora mais de três meses desde a mudança. O apartamento era mesmo perfeito. Os amigos nunca souberam do pequeno incoveniente e o quarto permanecia fechado. Vez ou outra eles entravam lá para guardar umas caixas. Um dia decidiram colocar lá um armário com algumas roupas que não usavam muito. Não haveria problema entrar lá de vez em quando, para pegar uma roupinha.

Um jazz clássico embalava a leitura de Lucas na sala, enquanto Roberta arrumava a mesinha de estudo que haviam montado no quarto de Dona Sônia. Ela ajeitava cuidadosamente as fotos de viagem nos porta-retratos e divagava sobre cada um daqueles momentos felizes. “– A gente teve muita sorte de se encontrar…”, dizia ela em voz baixa, segurando uma das fotos, sem que houvesse ninguém ali além da senhorinha imóvel na cadeira de balanço.

Lucas abrira aquela carta já um pouco nervoso, nunca havia tido qualquer contado com os proprietários, os filhos de Dona Sônia, e sempre tivera medo de perder o apartamento ou algo assim, afinal, as condições que envolveram o aluguel foram no mínimo, estranhas. Mas o texto já começava em tom bastante amigável, agradecendo pelo aluguel do apartamento e desculpando-se pela terrível situação referente ao corpo na varanda. “Devemos inicialmente agradecer por terem aceitado uma situação tão desagradável quanto incomum, mas aproveitamos para informar que, felizmente, conseguimos através dos órgãos júridicos competentes, providenciar a retirada do corpo do apartamento, o que deverá ocorrer na próxima segunda-feira, dia vinte e nove, às dez horas da manhã”.

A chuva batia forte na janela da varanda naquela manhã, enquanto os funcionários da Santa Casa moviam o corpo de Dona Sônia de sua posição serena, para colocá-lo dentro daquele terrível saco preto. Uma indignação tomava conta de Roberta. “– Lucas, faz alguma coisa! Eles não podem fazer isso com ela. Estão tratando ela como um cadáver qualquer!”, gritava ela soluçando. Lucas assistia a tudo estático, mas abraçou então a esposa com força, e sentiu também uma lágrima escorrer no canto do olho. Pensava em quanto custaria o aluguel, agora que a velha não estaria mais ali.
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Aqui ou lá

Olho o horizonte como olhava antes. Ainda na espera do que tem de acontecer. São quase as mesmas cores, mas as gotas aqui, correm em mim. Lá, as via descendo pelo vidro da janela. Distorciam levemente minha desesperança, ou era o vinho? Não sei. Mas lá, uma permanente embriaguês, de alegria, ou de álcool mesmo, me fazia ver um horizonte mais fácil. Aqui sou mais, sei mais, mas lá, era a descoberta que me fascinava. Não importa, sou o mesmo. Sou consciente do que sou, aqui ou lá. E a felicidade, ora, essa não está aqui nem lá, está ao alcance da minha mão, nos dedos que se cruzam, no olhar, no sorriso que vejo, e que mostra meu lar de verdade, que não é lá nem aqui, mas onde você estiver comigo.

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Alegria de carnaval

O polegar se arrasta repetidamente pela pequena tela de vidro. A alegria das pessoas nas fotos o irrita, sabe das mentiras por atrás daqueles sorrisos. Jura que são em sua maioria, uns infelizes. Escondem suas verdades sob as fantasias e espalham a mentira com filtros coloridos.

Ele desce devagar as escadas estreitas do pequeno prédio na Lapa. Atravessa a pesada porta de metal que separa o barulho abafado da imensa massa de pessoas fantasiadas. Com o braço esticado na calçada, aponta a pequena lente para a multidão, tomando cuidado para pegar a gostosa de peruca rosa e o grupo de amigos pulando abraçados. Um clique, um filtro, uma frase inspirada com o nome do bloco e pronto. “Post”.

Bate a porta atrás de si, volta ao apartamento escuro e senta-se novamente, sozinho, diante da televisão. Vê na pequena tela mais sorrisos daquele carnaval colorido, mas tem certeza, a alegria verdadeira está ali, na maciez do seu whisky e no silêncio da fumaça do seu charuto.